Entre grades e silêncios, um thriller moral que questiona maternidade, punição e o colapso da empatia na Escandinávia

Conhecida pela força que empresta à personagem Birgitte Nyborg em Borgen, a atriz Sidse Babett Knudsen retorna em grande forma no drama penitenciário Filhos (Vogter, no original), dando vida à agente carcerária Eva.

Com 1,68m de altura, Eva talvez não imponha fisicamente, mas seu caráter inflexível e senso de justiça fazem dela uma gigante — ao menos na ala onde leciona ioga para presos de menor periculosidade. Quando decide se transferir para a ala de segurança máxima, onde o sistema penal escandinavo abriga seus lobos mais perigosos, a percepção muda. Seu corpo e sua voz suave passam a ser lidos como fragilidade.

O preconceito, ali, não é apenas estrutural, é também visceral.

Mas Eva não tarda a mostrar seus dentes. Sua resposta é dura, violenta, impiedosa. Adapta-se, molda-se, endurece. A razão para isso, porém, não está apenas no ambiente — está dentro dela. Há um passado que retorna, um trauma que a move. E, no centro desse reencontro, está Mikkel (Sebastian Bull), figura bestial cujo comportamento desafia qualquer traço de civilidade.

O título Filhos sugere à primeira vista um drama familiar. E o é, em certa medida. Mas também é uma metáfora robusta sobre a Europa contemporânea, suas contradições e fracassos morais. O presídio funciona como microcosmo de um continente em crise — social, emocional e ética. Um espaço onde o diálogo parece cada vez mais inalcançável e onde o perdão se torna uma utopia esfacelada.

Lançado em competição no Festival de Berlim 2024 e exibido com destaque na Mostra de São Paulo, o longa de Gustav Möller — do aclamado Culpa (2018) — é exemplar do chamado “cinema penitenciário”, gênero que há décadas examina os mecanismos de punição e a desumanização institucional. É um filme sobre o colapso da empatia, sobre a dureza com que a sociedade escolhe rotular e descartar. Nesse aspecto, Möller constrói seu thriller moral com precisão cirúrgica, guiado por uma montagem nervosa (de Rasmus Stensgaard Madsen) e uma fotografia desidratada (Jasper J. Spanning) que sufoca o espectador a cada quadro.

A narrativa não entrega respostas fáceis. Pelo contrário: nos empurra para zonas de desconforto. Os gestos vacilantes de Eva, seus silêncios, seus olhares perdidos — tudo nos leva a julgá-la. E, quando acreditamos ter entendido suas motivações, o filme muda de direção. O roteiro, assinado por Möller e Emil Nygaard Albertsen, nos obriga a repensar o arquétipo da heroína e a rever nossas certezas melodramáticas. O resultado é um estudo sobre poder, trauma e limites, ancorado em uma atuação majestosa de Sidse Babett Knudsen, que carrega o filme nas costas com precisão e humanidade.

Filhos é cinema político e psicológico de alta voltagem. Um suspense de alma escandinava e sangue quente, que não teme mergulhar em temas espinhosos e emerge como uma das obras mais impactantes do gênero na década.

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Mares Filmes.

Foto: Divulgação/Mares Filmes

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+

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