Entre sátira e militância, uma comédia que diverte, mas evita complexidades maiores A sátira é uma ferramenta poderosa: ao exagerar comportamentos cotidianos, revela falhas sociais, abusos e absurdos que passariam despercebidos no retrato fiel da realidade. É nessa chave que Uma Mulher Sem Filtro, dirigido por Arthur Fontes, se desenvolve. Diferente de sátiras extremas como Idiocracia (2006), o longa prefere trabalhar com arquétipos reconhecíveis do nosso dia a dia, como a “mãe de pet”, o “esquerdomacho”, o “chefe machista” e a “influencer superficial que guarda mais inteligência do que aparenta”, interpretada por Camila Queiroz. O fio condutor da trama é Bia (Fabíula Nascimento), publicitária sobrecarregada de uma revista feminista que vive engolindo ofensas, desrespeitos e frustrações vindas do marido, do enteado, da vizinha, do chefe e até de estranhos. O ponto de virada surge quando ela se submete a uma sessão com a enigmática Deusa Xana (Polly Marinho), que a liberta do medo de se expressar. A partir daí, Bia transforma radicalmente sua vida e a de quem a cerca. Diferente de narrativas semelhantes como Se Eu Fosse Você (2006) ou O Mentiroso (1997), não há um retorno ao “normal” após o aprendizado. Aqui, a mudança é definitiva: um símbolo de reconexão com o feminino em um mundo marcado pelo patriarcado. A jornada de Bia é menos sobre confrontar os outros e mais sobre encarar a si mesma. Quando decide romper essa barreira — de forma rápida demais para os padrões do cinema clássico, mas eficiente dentro da proposta — ela se torna mais humana, permitindo-se chorar, cuidar e lutar por si. Se a virada é convincente, o mesmo não pode ser dito do desenvolvimento posterior. O tom militante, embora coerente com o discurso, começa a cansar na segunda metade, quando o filme insiste em repetir suas mensagens de empoderamento sem novas nuances. Comparado a obras mais sofisticadas, como Eu Não Sou um Homem Fácil (2018), a produção se limita a entregar um entretenimento honesto, mas não uma reflexão profunda. Os personagens masculinos, por exemplo, são reduzidos a três arquétipos: o chefe machista, o marido preguiçoso e o amigo pseudo-progressista. Sempre no papel de vilões, eles reforçam uma dicotomia que empobrece o debate. Ainda assim, o tom satírico e exagerado atenua o maniqueísmo, já que a intenção não é realismo, mas provocar constrangimento, risadas e reflexões rápidas. A escolha de enquadramentos próximos, colando a câmera ao rosto de Fabíula Nascimento, também amplia a intimidade com a protagonista e o desconforto gerado pelas situações. No fim, Uma Mulher Sem Filtro cumpre o prometido: diverte, provoca e funciona como um manifesto pela liberdade e autoaceitação feminina. Mas suas escolhas simplistas e dicotômicas limitam o alcance da obra, impedindo-a de se tornar um retrato mais denso das complexas relações humanas que espelha. *Título assistido em Pré-Estreia promovida pela H20 Films. Créditos: Redes Sociais/H2O Films ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+ Navegação de Post Crítica: “A Hora do Mal” Crítica: “Invocação Do Mal 4: O Último Ritual”