Animação chinesa aposta em uma boa ideia, mas se perde na pressa e na falta de refinamento técnico

Se tem algo que é subestimado, é a atenção aos detalhes. É comum pensarmos nas grandes estruturas já prontas, como se fossem erguidas por mágica: um avião, um arranha-céu ou até mesmo um filme. Quando tudo parece bem construído, imaginamos que bastou vontade e um bom projeto. Mas filmes como Entre Penas e Bicadas, animação dirigida por Dong Long e Nigel W. Tierney, mostram como grandes criações dependem de uma infinidade de pequenos elementos — e como a falta de cuidado em cada um deles pode fazer toda a diferença.

Lançado originalmente em 2021 e chegando agora aos cinemas brasileiros, o longa chinês acompanha Bico Dourado, uma águia criada entre galinhas em uma vila rural. Por ser diferente, ele sonha em voar e descobrir suas origens, mas é constantemente desencorajado pela mãe adotiva. Ao lado da irmã Catraca, decide deixar o conforto do galinheiro e seguir para Bird City, cidade natal de seus pais biológicos. Lá, encontra parentes distantes, desenterra segredos familiares e enfrenta dilemas sobre identidade e pertencimento.

É sempre estimulante ver uma animação que foge do eixo Estados Unidos–Europa. Contudo, essa empolgação inicial não se traduz em qualidade narrativa. Entre Penas e Bicadas tem todos os ingredientes de uma boa história — um protagonista com jornada clara, vilão com motivações críveis e coadjuvantes interessantes — mas falha na costura que transforma esses elementos em algo vivo. A sensação é de que o filme teve uma ótima ideia no papel, mas não conseguiu traduzi-la em uma execução coesa.

O roteiro, apressado, tenta condensar todos os momentos-chave em apenas uma hora e meia, sacrificando o desenvolvimento emocional.

Falta tempo para que o público se envolva com os personagens, e as piadas e reviravoltas passam sem impacto. Em determinado momento, Bico Dourado lamenta não saber voar — segundos depois, já sobrevoa os céus com maestria. Sem obstáculos reais, a jornada perde sentido e, com ela, a empatia do espectador.

No campo visual, o longa alterna entre o aceitável e o descuidado. Os personagens principais têm um design funcional, mas o cenário de fundo carece de textura e vida.

Figurantes imóveis, expressões travadas e movimentos de câmera desnecessariamente ambiciosos tornam várias cenas visualmente confusas. A montagem tenta compensar com cortes rápidos, mas o resultado é uma narrativa fragmentada e sem ritmo.

Há, entretanto, lampejos de competência. As sequências de ação são bem conduzidas e o clímax finalmente entrega a tensão que o filme promete desde o início. Os coadjuvantes — especialmente Catraca — se destacam, trazendo o carisma que falta ao protagonista.

Entre Penas e Bicadas tinha uma estrutura promissora e até uma boa reflexão sobre o embate entre natureza e tecnologia. Porém, a falta de cuidado na execução — justamente nos detalhes que sustentam uma boa animação — faz com que o longa voe baixo. É uma pena ver um projeto com potencial tão claro tropeçar em sua própria pressa.

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela A2 Filmes.

Foto: A2 Filmes

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+

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