Entre o esporte e a opressão, um thriller sufocante sobre escolhas impossíveis A força de Tatame está justamente na sua proximidade inquietante com a realidade. Ainda que não se baseie em uma história real específica, o filme constrói uma ficção que parece documental em sua essência — não porque aconteceu exatamente daquela forma, mas porque poderia ter acontecido. Essa verossimilhança é o que sustenta o impacto do longa desde seus primeiros minutos. Codirigido por Zar Amir Ebrahimi e Guy Nattiv, o filme articula com precisão o cruzamento entre drama esportivo e thriller político. No centro da narrativa está o conflito entre Leila e sua treinadora Maryam, duas mulheres colocadas em lados opostos por um sistema opressivo que se perpetua justamente ao dividir aqueles que deveriam estar juntos. O roteiro de Elham Erfani e Nattiv transforma o campeonato em um campo de batalha simbólico. No tatame, Leila enfrenta adversárias; fora dele, enfrenta um regime que instrumentaliza o esporte como extensão de sua política. A rivalidade entre Irã e Israel nunca se manifesta de forma direta entre as atletas — pelo contrário, há respeito e admiração — o que torna ainda mais evidente o absurdo das imposições externas. A tensão é constante e crescente. A cada nova luta, os riscos se ampliam, extrapolando o universo esportivo e atingindo a vida pessoal dos personagens. Ameaças à família de Leila e à mãe de Maryam elevam o drama a um nível sufocante, onde cada decisão carrega consequências devastadoras. O espectador é colocado nesse labirinto moral sem saídas fáceis. Visualmente, o filme potencializa essa sensação. A fotografia de Todd Martin utiliza o preto e branco e uma razão de aspecto mais estreita para criar um ambiente claustrofóbico, onde não há espaço para fuga. Dentro do tatame, a câmera se move com agilidade, quase coreografando os combates de forma visceral e imersiva. As atuações são fundamentais para sustentar esse equilíbrio delicado. Arienne Mandi entrega uma protagonista intensa, traduzindo fisicamente e emocionalmente a transformação de Leila — da confiança inicial ao conflito interno devastador. Já Ebrahimi constrói uma Maryam complexa, presa entre obediência e consciência, cuja ansiedade se revela em gestos repetitivos e simbólicos, como o ato de ajustar o chador ou o cabelo da atleta. O filme também acerta ao explorar como sistemas opressivos se mantêm ao colocar indivíduos em posições impossíveis. Maryam não é antagonista — é vítima. Assim como Leila. O embate entre ambas revela um mecanismo maior, no qual mulheres são levadas a confrontar umas às outras enquanto o verdadeiro poder permanece intacto. Ainda assim, Tatame não é isento de falhas. Os momentos em que a narrativa abandona o confinamento do campeonato, especialmente através de flashbacks, quebram o ritmo e diluem a tensão construída com tanto cuidado. Essas inserções pouco acrescentam ao desenvolvimento dramático e acabam enfraquecendo a imersão. Algumas cenas explicativas, como a exigência de autorização do marido, soam redundantes dentro de um contexto que já evidencia claramente a opressão estrutural. Tatame é um filme intenso, angustiante e profundamente relevante. Ao transformar o esporte em palco de uma luta por dignidade, a obra revela como regimes autoritários ultrapassam qualquer limite — inclusive o da competição justa. Mesmo com pequenos deslizes estruturais, o longa se sustenta pela força de sua proposta, pela tensão constante e pelas atuações marcantes. Mais do que um drama esportivo, é um retrato poderoso de resistência, identidade e sobrevivência. *Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Kajá Filmes Fotos: Kajá Filmes ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+ Navegação de Post Crítica: “Iron Lung” Crítica: “Verdade & Traição”