Um romance juvenil que se perde em suas próprias camadas Romances adolescentes costumam apostar em uma fórmula bastante conhecida: primeiro amor, conflitos escolares, personagens idealizados e aquela sensação de que qualquer encontro no corredor pode mudar uma vida inteira. Diretamente da Rússia, Coração Partido tenta seguir esse caminho ao adaptar o livro homônimo de Anna Jane, mas decide acrescentar uma série de conflitos que acabam tornando a jornada mais pesada do que envolvente. A proposta inicial é simples e familiar, mas o filme tenta transformar uma história de paixão juvenil em algo maior ao abordar bullying, violência doméstica e criminalidade. O problema é que essas novas camadas, embora tenham potencial, nem sempre encontram espaço para se desenvolver de maneira orgânica. Polina, interpretada por Veronika Zhuravleva, começa a estudar em uma nova escola e rapidamente se torna alvo das colegas, sofrendo sucessivas situações de bullying. Em meio a esse período difícil, ela se interessa por Bars, vivido por Daniel Vegas, um colega que mora no prédio em frente ao seu. Depois de testemunhar as humilhações sofridas pela garota, Bars decide protegê-la. O relacionamento começa, inicialmente, como uma espécie de acordo de proteção, mas os dois acabam desenvolvendo sentimentos verdadeiros, mesmo em meio a discussões, inseguranças e resistências. A partir daí, porém, Coração Partido amplia sua história para além do romance. A trama passa a explorar relações familiares, triângulos amorosos, violência doméstica e até a aproximação dos jovens com o mundo do crime. Visualmente, o filme encontra alguns de seus melhores momentos na fotografia. Os cenários e personagens são apresentados de maneira bastante estilizada, criando uma estética próxima das produções voltadas às plataformas digitais e das imagens cuidadosamente construídas para as redes sociais. O problema é que essa beleza visual nem sempre encontra correspondência no desenvolvimento narrativo. O filme parece mais preocupado em apresentar personagens visualmente atraentes e situações chamativas do que em construir organicamente as consequências emocionais de tudo aquilo que acontece. É como observar uma fotografia bonita de uma história que nunca consegue encontrar o enquadramento perfeito para contar o que realmente pretende. Veronika Zhuravleva sustenta Polina com uma interpretação que busca transmitir a vulnerabilidade da personagem diante das dificuldades enfrentadas na escola e dentro de casa. Daniel Vegas, por sua vez, constrói Bars como o típico jovem misterioso e protetor dos romances adolescentes. A dinâmica entre os dois funciona melhor nos momentos em que o filme permite que a relação evolua naturalmente, sem sobrecarregá-la com novos conflitos. O problema está menos no desempenho individual do elenco e mais no material oferecido pelo roteiro, que frequentemente cria situações e personagens sem desenvolver suficientemente suas consequências. Por trás do romance, Coração Partido tenta discutir questões muito mais delicadas. O bullying sofrido por Polina estabelece uma discussão sobre exclusão e violência entre adolescentes, enquanto os conflitos familiares ampliam a história para um ambiente ainda mais problemático. A entrada de elementos relacionados ao crime e à violência doméstica poderia conferir maior profundidade à narrativa, mas essas questões acabam funcionando mais como novas peças adicionadas ao tabuleiro do que como elementos verdadeiramente integrados à evolução dos personagens. Coração Partido começa prometendo uma história de primeiro amor e termina tentando ser romance, drama familiar, narrativa sobre bullying e até história de envolvimento com o crime. A ambição de apresentar tantas camadas é compreensível, mas o excesso acaba prejudicando justamente aquilo que deveria sustentar o filme: o relacionamento entre Polina e Bars. Com personagens visualmente atraentes, fotografia caprichada e uma premissa capaz de conversar com o público adolescente, o longa possui ingredientes interessantes. Entretanto, o roteiro frequentemente transforma essas possibilidades em uma sucessão de conflitos que torna difícil se envolver emocionalmente com a história. No fim, Coração Partido parece querer dizer muito, mas acaba encontrando pouco espaço para desenvolver cada uma de suas ideias. Um romance juvenil bonito por fora, porém narrativamente sobrecarregado. *Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Paris Filmes Foto: Divulgação/Paris Filmes ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+ Navegação de Post Crítica: “Moana” (Live-Action)