Entre espetáculo e moralidade, uma fábula que encanta os olhos, mas pouco desafia

Recontar Pinóquio é como tentar esculpir novamente um boneco que o mundo já conhece de olhos fechados. A nova versão dirigida por Igor Voloshin aposta em uma roupagem contemporânea, com ambição visual e estrutura musical, mas acaba revelando um projeto mais interessado em parecer grandioso do que em aprofundar sua própria essência.

A premissa continua potente. A história de um ser que nasce diferente e precisa encontrar seu lugar no mundo ainda carrega um apelo universal. A ideia de alteridade, de existir à margem e buscar aceitação, é o coração que deveria pulsar forte aqui. No entanto, o filme prefere explicar esse sentimento em voz alta, quase como um professor insistente, em vez de permitir que ele emerja naturalmente das ações e conflitos.

Narrativamente, a estrutura episódica enfraquece o envolvimento. Os eventos surgem como pequenas ilhas dramáticas, conectadas mais por necessidade do que por fluxo orgânico. Cada novo cenário apresenta um conflito, mas poucos deixam marcas duradouras. Falta progressão, falta acúmulo — falta aquele momento em que a história ganha peso e não apenas movimento.

Visualmente, o filme constrói um palco vistoso. A ambientação inspirada em cidades italianas oferece escala e detalhamento, enquanto os figurinos assinados por Nadezhda Vasilyeva ajudam a compor uma identidade estética coerente. Ainda assim, há algo curioso: o mundo parece grande, mas vazio. Bonito, porém pouco vivido. Como uma maquete cuidadosamente iluminada, mas sem calor humano.

O musical entra em cena como uma tentativa de dar ritmo e identidade à narrativa. Algumas canções conseguem expandir o universo e dialogar com o público, especialmente pelo fator de reconhecimento. Outras, no entanto, surgem como interrupções — pequenos desvios que quebram a fluidez em vez de enriquecê-la. A coreografia, por vezes tímida, não acompanha a grandiosidade que o filme parece desejar.

A nostalgia, claro, está presente. Personagens e situações familiares reaparecem como velhos conhecidos batendo à porta. Mas esse reencontro raramente provoca emoção genuína. Em vez de ressignificar o passado, o filme muitas vezes apenas o repete, reduzindo o impacto do que já foi, um dia, mágico.

Tematicamente, há caminhos interessantes que acabam subaproveitados. O teatro de Karabas-Barabas, por exemplo, sugere um conflito rico entre liberdade e controle — quase uma metáfora pronta para florescer. Mas permanece na superfície, como um cenário funcional, não como um motor dramático.

Pinóquio (2026) cumpre seu papel como entretenimento familiar: é acessível, visualmente atraente e pontuado por momentos musicais que dialogam com diferentes gerações. Funciona como uma sessão leve, dessas que passam sem esforço.

Mas falta coragem para ir além do esperado. Entre o brilho da superfície e a ausência de profundidade, o filme se comporta como seu próprio protagonista em versão inicial: cheio de potencial, mas ainda longe de se tornar algo verdadeiramente vivo.

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Paris Filmes

Foto: Divulgação/Paris Filmes

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+

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