Ação à brasileira com coração de mãe e pulso de blockbuster Existe algo quase mítico na presença de Giovanna Antonelli para toda uma geração. Entre novelas icônicas como O Clone e produções mais recentes como Beleza Fatal, sua imagem atravessa o tempo como uma espécie de lembrança coletiva. Rio de Sangue aproveita essa bagagem afetiva e a transporta para um território menos explorado em sua carreira: o cinema de ação. Logo de início, o filme estabelece suas cartas na mesa. Patrícia é apresentada em meio a um confronto armado, cenário que funciona como prólogo para a clássica jornada da heroína afastada que será inevitavelmente puxada de volta ao caos. A estrutura é familiar, quase como um roteiro que já vimos em diferentes sotaques — agora com tempero amazônico. E aqui está um dos méritos do longa: ele sabe exatamente de onde vem. Ao abraçar os clichês do gênero — a mãe disposta a tudo, o sequestro como gatilho, o retorno à violência — o filme demonstra consciência suficiente para brincar com essas convenções, inclusive ao inverter papéis tradicionais, colocando uma mulher como centro ativo da ação. A ambientação no Pará adiciona uma camada interessante, especialmente ao inserir o conflito entre garimpeiros e comunidades locais. No entanto, essa tentativa de incorporar questões sociais mais complexas acaba sendo tratada com cautela excessiva, quase como se o filme pisasse em terreno delicado com medo de afundar. O resultado é uma abordagem superficial de temas que pediam mais densidade. Se no campo temático o longa hesita, no técnico ele surpreende. As cenas de ação são bem coreografadas, claras e envolventes — algo ainda raro dentro do cinema brasileiro. Há um cuidado visível em manter a geografia dos confrontos compreensível, evitando a confusão típica de montagens apressadas. Quando o filme engata nesse ritmo, ele pulsa com energia e segura o espectador com firmeza. Claro, nem tudo flui com a mesma precisão. O roteiro se permite algumas reviravoltas exageradas, abraçando o absurdo com certa naturalidade. Funciona dentro da proposta? Em partes. Mas há momentos em que a suspensão de descrença é levada ao limite. Um ponto mais problemático é a narração conduzida pelo personagem de Fidelis Baniwa. Embora represente uma perspectiva indígena relevante dentro do contexto, sua inserção soa deslocada, como uma camada adicionada posteriormente para dar profundidade ao discurso. Em vez de integrar, a narração frequentemente interrompe o fluxo emocional da história, desviando o foco do que deveria ser o eixo central: a relação entre mãe e filha. E é justamente nesse eixo que o filme encontra sua força. Giovanna Antonelli carrega a narrativa com presença e intensidade, construindo uma protagonista que mistura vulnerabilidade e determinação com naturalidade. Sua atuação dá peso às decisões da personagem e ancora o filme mesmo quando o roteiro vacila. Rio de Sangue é um daqueles filmes que não reinventam a roda — mas fazem a roda girar com energia suficiente para entreter. Ao apostar em uma protagonista forte e em sequências de ação bem executadas, o longa se firma como um exemplo interessante de como o cinema brasileiro pode explorar novos gêneros. Entre acertos técnicos, escolhas narrativas discutíveis e um coração pulsando no centro da história, o filme encontra seu lugar como uma experiência divertida, ainda que irregular. No fim das contas, é menos sobre surpreender e mais sobre provar que o Brasil também sabe entrar na arena da ação — e sair dela com dignidade. *Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Buena Vista International Brasil Foto: Divulgação/Disney ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+ Navegação de Post Crítica: “Verdade & Traição” Crítica: “Pinóquio”