Vítima, justiceira ou algo entre os dois? O novo filme nacional propõe uma reflexão urgente sobre vingança, violência e silêncio

Violência gera silêncio — ou reação? É com essa pergunta que Atena, novo longa nacional dirigido por Caco Souza, nos convida a entrar em uma espiral de dor, resposta e consequências. Em um Brasil onde as instituições falham com frequência em proteger suas cidadãs, o filme ganha força justamente por colocar no centro da narrativa uma mulher comum que, cansada de ser ignorada, decide agir.

Mel Lisboa dá vida à personagem-título com intensidade e camadas. Atena não nasce justiceira; ela é moldada pelas cicatrizes de uma sociedade que falha em ouvir, em acolher e, principalmente, em proteger. A rotina aparentemente tranquila da protagonista dá lugar a uma jornada de transformação quando a violência — física, moral, institucional — rompe o silêncio ao seu redor. O que surge, então, não é exatamente vingança no sentido clássico do termo, mas um clamor por alguma forma de equilíbrio.

O roteiro acerta ao não transformar Atena em um símbolo unilateral. Mesmo enquanto ela avança contra seus algozes, seus momentos de fragilidade não são apagados. Pelo contrário: são parte essencial do que a torna humana. Lisboa transita com naturalidade entre o cotidiano e o confronto, entre a dor e a ação, criando uma personagem que provoca incômodo, empatia e debate.

Do outro lado da narrativa, Thiago Fragoso entrega um investigador que se destaca por fugir dos estereótipos. Seu personagem é falho, contido, realista — um contraponto necessário à fúria que move a protagonista. A investigação que conduz não conta com grandes reviravoltas ou explosões espetaculares, mas ganha relevância justamente por sua condução plausível, carregada de dúvidas, limitações e tentativas honestas de entender o que está acontecendo.

Visualmente, Atena é igualmente eficaz. A fotografia aposta em filtros escuros e composições pensadas que criam uma atmosfera opressiva, mas elegante. Nada soa gratuito. O ritmo do filme é acelerado, quase sem respiros, mas mantém o controle narrativo mesmo em seus momentos mais tensos. As poucas cenas de ação seguem essa linha: são diretas, quase cruas, sem a estilização que costuma marcar o gênero.

Ainda assim, nem tudo funciona perfeitamente. O longa tropeça em algumas escolhas de roteiro. O passado trágico da protagonista, ainda que importante para justificar suas ações, ocupa mais tempo do que deveria, quebrando o ritmo em momentos cruciais. E certas passagens da narrativa desafiam a lógica interna do próprio filme — ações da personagem que deveriam atrair atenção imediata das autoridades passam despercebidas com facilidade, enfraquecendo um pouco o realismo que o diretor claramente pretende construir.

Apesar desses deslizes, Atena deixa uma impressão forte. Não apenas pelo impacto de sua protagonista ou pela densidade de sua estética, mas pela discussão que levanta. Quando as estruturas sociais falham, quando a justiça se mostra surda e lenta, o que resta? O filme não oferece respostas fáceis — mas talvez o seu maior mérito seja justamente esse.

Atena pode não ser perfeita. Mas é urgente. E, neste momento, isso importa mais.

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela A2 Filmes.

Foto: Divulgação/A2 Filmes

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *