Entre cartões-postais e conflitos rasos, um romance que transforma Salvador em cenário — não em personagem

O cinema sempre encontrou nas cidades matéria-prima para construção dramática. Obras como O Agente Secreto e São Paulo Sociedade Anônima provaram que espaços urbanos podem ultrapassar a função de pano de fundo e se tornar personagens vivos, moldando conflitos e identidades. De Volta à Bahia, ao menos pelo título, sugere intenção semelhante: fazer de Salvador um elemento central da narrativa.

Na prática, porém, o longa dirigido por Eliezer Lipnik e Joana di Carso opta por uma abordagem superficial. Salvador é apresentada através de uma sucessão incessante de planos gerais e imagens aéreas que percorrem seus cartões-postais mais conhecidos — da Praia da Barra ao Pelourinho, passando pelo Farol de Itapoã e pela Igreja do Bonfim. Se, inicialmente, tais imagens cumprem o papel de situar geograficamente os personagens, logo se tornam repetitivas, esvaziadas de significado dramático.

O problema não está em celebrar a beleza da capital baiana — que, por si só, já carrega potência cinematográfica suficiente. A questão reside na insistência estética que transforma o filme numa espécie de vídeo institucional de promoção turística. Muitas das paisagens exibidas sequer dialogam com a presença dos personagens, surgindo apenas como vitrine visual. A montagem dinâmica e a trilha sonora contemporânea — utilizada até a exaustão e com mixagem sonora frágil — reforçam a sensação de que a narrativa ocupa papel secundário.

Quando o roteiro finalmente retorna ao centro da história, pouco se sustenta. Bárbara França e Lucca Picon demonstram certa química, especialmente na construção da expectativa para o primeiro beijo, cuja resolução funciona de maneira eficaz. No entanto, os conflitos familiares e pessoais que deveriam aprofundar o romance se revelam frágeis e previsíveis, apoiados em fórmulas do gênero sem qualquer tentativa de renovação.

É verdade que a comédia romântica tradicionalmente depende de estruturas consolidadas. Ainda assim, o problema aqui não é a fórmula — é a execução. A direção falha em desenvolver organicamente os dramas internos dos protagonistas e negligencia o potencial dos coadjuvantes. Beth surge como antagonista caricatural; Arthur limita-se a um humor constrangedor; e PH assume o papel de mentor motivacional em falas que soam como recortes de redes sociais. Falta densidade, falta nuance — e, sobretudo, falta envolvimento emocional.

A ausência de personagens verdadeiramente cativantes compromete qualquer investimento afetivo do público. Mesmo em histórias leves, o mínimo necessário é que nos importemos com quem está em cena. Aqui, a sensação é de distanciamento constante, como se estivéssemos assistindo a uma peça promocional com pitadas de romance protocolar.

De Volta à Bahia se perde entre intenção e resultado. Deseja ser uma comédia romântica solar, vibrante e conectada à identidade soteropolitana, mas entrega um produto que se apoia excessivamente na estética publicitária e pouco investe na construção dramática.

Salvador merecia mais do que ser exibida como cartão-postal reiterado; merecia ser sentida, vivida, incorporada à narrativa como força transformadora. Sem isso, o filme permanece bonito na superfície — e raso em essência.

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Swen Filmes

Foto: Divulgação/Magia filmes

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+

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