Zumbis inteligentes, ideias interessantes e explicações demais

Será que ainda existe espaço para histórias de zumbis no cinema? Depois de décadas explorando apocalipses, infecções e sociedades à beira do colapso, o gênero enfrenta um desafio cada vez maior: encontrar maneiras de surpreender um público que já viu praticamente de tudo. Em Zona Zero (Colony), o terror sul-coreano dirigido por Yeon Sang-ho tenta responder a essa questão com uma proposta que dá aos mortos-vivos uma característica bastante particular: a capacidade de aprender, raciocinar e evoluir coletivamente.

Exibido antecipadamente no Festival do Rio, na mostra da meia-noite, e posteriormente lançado nos cinemas brasileiros, o longa aposta na combinação entre terror biológico, suspense claustrofóbico e ficção científica. A premissa é promissora, mas a execução tropeça justamente quando tenta explicar demais aquilo que deveria nos deixar apreensivos.

Se Jeong, interpretada por Jun Ji-hyun, é uma cientista desempregada que enfrenta dificuldades de socialização. Ao receber um convite de seu ex-marido, Han Gyu Seong, vivido por Go Soo, para participar de uma conferência de biotecnologia, ela enxerga uma oportunidade de retomar sua carreira.

O encontro, porém, toma um rumo desastroso quando um homem misterioso invade o evento e desencadeia uma contaminação provocada por um vírus mutante. Em pouco tempo, pessoas começam a se transformar em criaturas violentas, levando as autoridades a ordenar o isolamento do prédio.

Presos no local, Se Jeong, Gyu Seong e os demais sobreviventes precisam encontrar uma maneira de escapar. O problema é que essas criaturas não seguem exatamente o comportamento esperado de um zumbi convencional. Quanto mais os humanos tentam compreender seus movimentos, mais evidente se torna que estão diante de uma ameaça capaz de aprender com eles.

Yeon Sang-ho, conhecido por explorar diferentes facetas do terror e da ficção científica, encontra em Zona Zero uma oportunidade de renovar um gênero bastante familiar. A principal inovação está na maneira como os zumbis são apresentados: em vez de criaturas limitadas a perseguir suas vítimas por instinto, eles demonstram capacidade de adaptação e desenvolvem comportamentos coletivos.

Essa característica proporciona sequências visualmente perturbadoras, nas quais os movimentos coordenados das criaturas produzem um efeito quase hipnótico. A maquiagem, a coreografia e os efeitos visuais contribuem para construir uma ameaça que parece estar sempre um passo à frente dos sobreviventes.

A ambientação também merece destaque. O confinamento transforma o prédio em uma espécie de laboratório do desespero, enquanto o mundo exterior acompanha a expansão da crise. A fotografia e os efeitos visuais ajudam a estabelecer a dimensão do perigo sem depender exclusivamente de sustos repentinos.

O problema está no ritmo. Com mais de duas horas de duração, o filme interrompe frequentemente a progressão do suspense para apresentar explicações científicas, repetir informações e desenvolver hipóteses sobre o funcionamento do vírus. A atmosfera funciona, mas perde força quando a narrativa parece mais interessada em justificar sua própria premissa do que em deixar o espectador experimentar suas consequências.

Jun Ji-hyun conduz a narrativa com uma protagonista cuja formação científica se torna fundamental para compreender a ameaça. Se Jeong não é apenas mais uma sobrevivente tentando escapar, mas alguém que procura interpretar racionalmente o fenômeno enquanto enfrenta uma situação que ultrapassa qualquer experiência convencional.

Go Soo complementa a dinâmica da protagonista como Han Gyu Seong, contribuindo para o núcleo de sobreviventes e para os conflitos que surgem durante a tentativa de escapar.

Ainda assim, o desenvolvimento dos personagens acaba disputando espaço com as longas explicações sobre o vírus. Em determinados momentos, a investigação científica parece ocupar o centro da narrativa, deixando em segundo plano as relações humanas e as decisões que poderiam intensificar o drama.

Por trás da ameaça biológica, Zona Zero explora uma questão inquietante: o que acontece quando uma espécie considerada irracional começa a aprender com aquela que acredita estar no controle?
A evolução dos zumbis modifica a dinâmica tradicional entre predador e presa. Os humanos deixam de enfrentar apenas uma multidão de criaturas e passam a lidar com uma ameaça que observa, adapta-se e encontra novas maneiras de superar seus adversários.

A biotecnologia funciona, assim, como ponto de partida para discutir os limites do conhecimento científico e os riscos de subestimar fenômenos que escapam à nossa capacidade de controle.

Entretanto, ao tentar fundamentar cada elemento dessa evolução, o roteiro acaba explicando tanto que deixa pouco espaço para a imaginação.

Zona Zero prova que o cinema de zumbis ainda pode encontrar caminhos interessantes, desde que esteja disposto a modificar as regras de seu próprio universo. A ideia de criaturas capazes de aprender e agir coletivamente oferece uma ameaça diferente, enquanto os efeitos visuais e a atmosfera claustrofóbica sustentam bons momentos de tensão.

O excesso de explicações, porém, impede que o filme alcance todo o seu potencial.

Yeon Sang-ho constrói uma premissa instigante, mas nem sempre confia na capacidade das imagens e das situações de transmitir aquilo que o roteiro insiste em explicar verbalmente.

Para os fãs de mortos-vivos, há motivos suficientes para conferir a produção, especialmente pela abordagem diferenciada das criaturas. Só não espere que o suspense fale mais alto o tempo todo: em Zona Zero, até o apocalipse precisa interromper a correria para uma longa aula de biotecnologia.

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Paris Filmes

Foto: Divulgação/Paris Filmes

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+

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