Boléro, un film d’Anne Fontaine, avec Raphaël Personnaz (Ravel), Dora Tillier (Misia), Jeanne Balibar (Ida Rubinstein), Emmanuelle Devos (Marguerite Long), Vincent Pérez (CIPA), Anne Alvaro (la mère de Ravel), Sophie Guillemin (Mme Revelot), Alexandre Tharaud (Lalo) - Christophe Beaucarne DOP

A dança entre desejo, criação e legado

Maurice Ravel compôs uma das obras mais conhecidas da história da música – o Bolero – e, ironicamente, jamais se reconheceu no fascínio que o mundo desenvolveu por ela. Essa tensão entre criação e criador é o cerne de “Bolero – A Melodia Eterna”, filme de Anne Fontaine que pinta um retrato sensível, contraditório e por vezes melancólico do compositor francês.

Interpretado com nuance por Raphaël Personnaz, o Ravel do filme é um homem inquieto, dividido entre o desejo de reconhecimento e a recusa em ceder completamente àquilo que pulsa dentro de si. Seu processo criativo é retratado quase como um parto: lento, doloroso, imprevisível. E se a gestação de Bolero parece ser o foco do filme, ela é, na verdade, apenas o meio pelo qual conhecemos esse personagem cheio de lacunas e silêncios.

Fontaine opta por não explicar Ravel, mas insinuá-lo – seus olhares, suas hesitações, suas obsessões. O relacionamento contido com Misia, vivida por Dora Tillier, reforça a sensação de um homem que ama com intensidade, mas teme a vulnerabilidade que isso exige. A Paris dos anos 1920, recriada com charme e vitalidade, funciona como pano de fundo para esse paradoxo: em meio à liberdade artística e sexual da época, Ravel é o homem que freia os próprios impulsos.

A presença de Jeanne Balibar como Ida Rubenstein, musa e provocadora do Bolero, é outro ponto alto. É a partir dela que Ravel é desafiado a sair de si, a buscar uma nova forma de compor. O Bolero, com sua repetição hipnótica e sensualidade progressiva, surge como uma antítese ao seu próprio criador – uma obra que parece pulsar libido, enquanto o compositor tenta manter a compostura.

O filme tem consciência dessa ironia e a utiliza a seu favor, construindo um retrato íntimo e humano do gênio musical. A recusa de Ravel em aceitar o caráter erótico da própria obra é tratada com delicadeza, sugerindo mais do que afirmando, o que só fortalece o caráter subjetivo da narrativa.

“Bolero – A Melodia Eterna” é menos uma cinebiografia convencional e mais um estudo de personagem sobre um homem em luta com sua arte, seus sentimentos e sua imagem. Anne Fontaine dirige com elegância e contenção, deixando que os silêncios falem tanto quanto a trilha sonora.

No fim das contas, é sobre um homem que criou algo maior do que ele próprio – e passou o resto da vida tentando entender o porquê.

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Mares Filmes.

Divulgação/ Mares Filmes

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+

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