Quando a fantasia vira resistência política e o musical se torna um ato de sobrevivência Poucas obras da literatura latino-americana atravessaram tantas décadas, formatos e linguagens com a força de O Beijo da Mulher-Aranha. Desde o romance de Manuel Puig, publicado em 1976, a história se construiu como um artefato político que jamais abriu mão da fantasia, entendendo o imaginário não como escapismo raso, mas como estratégia vital diante da opressão. A nova adaptação cinematográfica, dirigida por Bill Condon, escolhe dialogar menos com o clássico filme de Héctor Babenco (1985) e mais com o musical da Broadway de 1995. Essa decisão estética e narrativa define toda a obra: aqui, a fantasia de Molina não pede licença à realidade — ela explode em cena, colorida, exagerada e assumidamente artificial. O filme se estrutura em tensão constante. De um lado, o realismo duro da prisão e do regime autoritário; de outro, os números musicais exuberantes, inspirados nos grandes espetáculos da MGM dos anos 1940. Condon busca conciliar memória histórica, discurso político e delírio estético, nem sempre encontrando o equilíbrio ideal. A primeira metade sofre com excesso de solenidade e didatismo: a relação entre Molina e Valentín demora a ganhar densidade emocional, e o embate ideológico inicial soa rígido, quase acadêmico. Valentín, em especial, surge frequentemente reduzido ao arquétipo do revolucionário dogmático, o que empobrece parte do debate político proposto. Quando o filme se permite sonhar, no entanto, ele floresce. As sequências musicais são o verdadeiro coração da obra. Filmadas com cores intensas, melodrama assumido e coreografias expansivas, elas funcionam menos como fuga e mais como gesto político silencioso. Imaginar, cantar e fabular tornam-se atos de resistência em um sistema que busca apagar subjetividades. Nesse sentido, a escalação de Jennifer Lopez para interpretar Ingrid Luna, Aurora e a própria Mulher-Aranha revela-se uma escolha precisa. Assim como Sônia Braga na versão de 1985, Lopez encarna a diva como construção estética e símbolo. Sua atuação não busca aprofundamento psicológico, mas afirma-se na performance corporal, no figurino e na dança, comentando com ironia e lucidez o lugar historicamente reservado às mulheres latinas no imaginário hollywoodiano. O grande destaque do elenco é Tonatiuh. Sua interpretação de Molina é delicada, sensível e profundamente humana, traduzindo com precisão um personagem que usa o cinema não apenas para escapar, mas para existir. Diego Luna entrega um Valentín sólido, ainda que limitado pelo texto, funcionando mais como contraponto ideológico do que como personagem plenamente desenvolvido. Tecnicamente, Condon demonstra pleno domínio da linguagem do musical, permitindo que o delírio vaze simbolicamente para a realidade da prisão. O filme sugere, com clareza, que amor, arte e política compartilham o mesmo impulso de libertação — e que a fantasia pode ser tão subversiva quanto qualquer manifesto. O Beijo da Mulher-Aranha (2025) talvez não alcance o status de obra-prima nem supere a adaptação de 1985, mas conquista algo igualmente valioso: identidade própria. Mesmo com desequilíbrios narrativos e um início excessivamente pesado, o filme encontra força ao reafirmar o poder da arte como refúgio, resistência e afirmação de identidade. Em tempos de reciclagens vazias, esta nova versão prova que revisitar clássicos ainda pode ser relevante — especialmente quando se entende que fantasia e política nunca estiveram em lados opostos. *Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes. Foto: Paris Filmes ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+ Navegação de Post Crítica: “Bob Esponja: Em Busca da Calça Quadrada” Crítica: “Davi – Nasce Um Rei”