Obsessão, caos e ambição em um espetáculo tão exaustivo quanto hipnotizante

Depois de ser apresentado ao público brasileiro durante a CCXP25, Marty Supreme chega aos cinemas como uma das apostas mais ambiciosas da Diamond Films — não apenas por seu orçamento recorde de 70 milhões de dólares, mas pela liberdade criativa concedida a Josh Safdie para levar ao limite sua visão de personagens movidos por compulsão e autodestruição.

Embora flerte com a estrutura biográfica, o filme rejeita qualquer compromisso com a fidelidade histórica. Safdie e Ronald Bronstein transformam Marty Reisman em Marty Mauser, uma figura amplificada, moldada para representar a face mais tóxica do sonho americano. O resultado é um protagonista que não busca apenas vencer, mas ser venerado, mesmo que isso custe a estabilidade emocional e moral de todos à sua volta.

Timothée Chalamet entrega aqui uma das performances mais transformadoras de sua carreira. A descaracterização física — marcada por próteses, maquiagem agressiva e figurinos desgastados — não é mero artifício estético, mas extensão direta do personagem. Marty Mauser surge como um corpo pequeno e aparentemente frágil, compensado por uma autoconfiança quase violenta e uma língua afiada capaz de dominar qualquer ambiente.

Chalamet entende perfeitamente a ambiguidade do papel e constrói um personagem que repele e fascina na mesma medida.

Narrativamente, Marty Supreme surpreende ao adotar uma estrutura mais linear e menos fragmentada do que outros trabalhos de Safdie. A cronologia clara não elimina o caos, mas o organiza em uma espiral crescente de decisões ruins, começando com o roubo do cofre da loja do tio e culminando em uma sequência de eventos cada vez mais absurdos em Londres. O roteiro não oferece atalhos morais nem redenções fáceis, sustentando uma ambiguidade que permeia todo o filme.

O elenco coadjuvante atua como engrenagem essencial desse mecanismo de obsessão.

Gwyneth Paltrow confere elegância e melancolia a Kay Stone, enquanto Kevin O’Leary surpreende em sua estreia no cinema como Milton Rockwell, personificação do capital que alimenta e legitima a megalomania de Marty.

Tyler, the Creator, em participações pontuais, acrescenta um humor afiado que reforça o tom de comédia absurda assumido pelo filme.

Tecnicamente, o longa impressiona. A fotografia de Darius Khondji reconstrói a década de 1950 com rigor visual, valorizando figurinos, cenários e uma Nova York meticulosamente recriada. O maior golpe de ousadia, no entanto, está na trilha sonora de Daniel Lopatin. O uso de sintetizadores típicos dos anos 1980 em contraste com a ambientação de época cria uma dissonância proposital que traduz o espírito do filme: caótico, elétrico e permanentemente fora de lugar.

O ritmo é implacável. As cenas se chocam umas contra as outras sem dar espaço para respiro, reforçando a sensação de ansiedade constante. Safdie conduz o espectador a um estado de desconforto contínuo, intensificado por um humor ácido que flerta com temas sensíveis — judaísmo, guerra e moralidade — sem qualquer intenção de suavizar o impacto. O riso, aqui, quase sempre vem acompanhado de culpa.

Marty Supreme não é um filme feito para agradar. Seu protagonista insuportável, sua energia exaustiva e sua recusa em oferecer conforto narrativo podem afastar parte do público. Ainda assim, é justamente nessa recusa que reside sua força. Josh Safdie entrega um retrato feroz da obsessão e do narcisismo travestidos de ambição, sustentado por uma performance arrebatadora de Timothée Chalamet e por uma mise-en-scène que pulsa caos e excessos. Um filme incômodo, provocador e impossível de ignorar.

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.

Foto: Divulgação/Diamond Films

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+

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