Um Poema Visual para Iniciados

Milton Bituca Nascimento, dirigido por Flavia Moraes, não busca ser um documentário convencional. Ele se posiciona mais como uma ode visual e sonora ao legado de Milton Nascimento, transbordando lirismo e reverência, com foco quase absoluto na grandiosidade de sua obra e no impacto que ela causou ao longo de gerações. A poesia da narrativa, narrada pela potente voz de Fernanda Montenegro, é o fio condutor que transforma o longa em uma espécie de canto-homenagem, celebrando sem didatismo.

Símbolo recorrente na obra de Milton, o trem não apenas costura o filme visualmente, mas também reforça a ideia de travessias — sejam geográficas, musicais ou emocionais. O uso do eco, outro elemento marcante, é tratado com sensibilidade, remetendo à infância do artista e sua curiosidade sonora, enquanto cenas do garoto Milton interagindo com seu “eu” adulto ampliam essa estética poética.

O longa é eficaz ao exaltar como Milton transcende o entendimento de estilos e idiomas. Depoimentos de gigantes como Wayne Shorter, Herbie Hancock e Sergio Mendes, além de nomes nacionais como Chico Buarque, Gilberto Gil e Mano Brown, são provas incontestáveis do impacto universal do cantor mineiro. Especialmente emocionante é a comparação feita por Shorter entre a voz de Milton e a de Miles Davis — um elogio que sintetiza bem sua relevância musical.

Flavia Moraes opta por imagens que flutuam entre o cotidiano e o grandioso: entrevistas em estúdios se alternam com conversas em parques, registros da turnê “A Última Sessão de Música” dividem espaço com momentos intimistas. Tudo permeado pela trilha de Milton, que acompanha e amplifica as emoções já presentes na tela.

O documentário também destaca a valorização das culturas negra e indígena na obra de Bituca, pontuada por depoimentos de artistas como Criolo e Mano Brown, e pela leitura coletiva de “Morro Velho” — um dos momentos mais fortes da produção.

Contudo, o que faz o filme tão bonito pode ser também seu maior obstáculo. Ao optar por uma linguagem poética e não linear, Milton Bituca Nascimento acaba abrindo mão de situar melhor seu espectador. Figuras fundamentais, como Fito Páez, surgem sem contexto para aqueles que não conhecem previamente sua relevância, e há poucos esforços para detalhar a trajetória de Milton além dos relatos elogiosos.

A ausência de informações mais objetivas — datas, acontecimentos pessoais marcantes ou até explicações mais claras sobre apelidos e nomes — distancia o filme do público que poderia estar sendo apresentado ao artista pela primeira vez. O resultado é uma experiência que funciona como um presente aos fãs, mas que pode soar hermética ou descompassada para os recém-chegados.

Milton Bituca Nascimento emociona por sua estética, por sua musicalidade e pelo respeito profundo ao artista que homenageia. Mas seu excesso de contemplação e falta de preocupação com a clareza fazem com que, ironicamente, limite sua capacidade de levar novos passageiros nesse trem. É uma celebração para quem já conhece o trilho, não necessariamente uma estação de embarque para quem ainda não descobriu Milton.

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Gullane.

Foto: Divulgação/Gullane

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal C+

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