Um Drama de Melancolia Apática
Após a consagração de Cillian Murphy com Oppenheimer, qualquer novo projeto estrelado pelo ator inevitavelmente gera curiosidade. No entanto, Pequenas Coisas Como Estas (Small Things Like This) se apresenta como um desafio diferente – um filme de atmosfera introspectiva e ritmo deliberadamente lento, que tenta abordar temas de trauma e desamparo familiar, mas se perde na monotonia e na falta de desenvolvimento emocional.
Murphy interpreta Bill Furlong, um carvoeiro irlandês da década de 1980, um homem exausto tanto fisicamente quanto emocionalmente. Casado e pai de quatro filhas, ele leva uma vida simples e silenciosa, onde cada detalhe da rotina – desde conversas com a esposa até as interações com as crianças – revela uma camada de frustração e memórias reprimidas.
O filme tenta construir uma reflexão sobre traumas passados e a incapacidade de enfrentá-los, mas sua abordagem acaba sendo demasiadamente sutil, resultando em uma narrativa que nunca se permite aprofundar no drama. Flashbacks fragmentados evocam a solidão da infância de Bill, marcada pela ausência materna e por um sentimento de desamparo, mas essas recordações surgem sem grande impacto narrativo.
Embora o tom melancólico do filme seja condizente com sua temática, Pequenas Coisas Como Estas falha em trazer um envolvimento emocional genuíno. A história poderia abordar o peso dos traumas e o impacto das injustiças sociais – especialmente as envolvendo instituições religiosas e a exploração infantil –, mas o faz de maneira morna e distante.
Há momentos que deveriam ser angustiantes, como as cenas das meninas castigadas no convento ou do menino pobre se esgueirando para beber leite de uma tigela de animais. No entanto, o filme nunca permite que essas cenas se transformem em algo realmente impactante, deixando a narrativa presa em um estado de apatia que pode cansar o espectador.
Baseado no livro homônimo de Claire Keegan, o longa tinha material de qualidade para explorar, mas sua adaptação para o cinema parece não encontrar um propósito claro. Ao invés de construir uma jornada significativa para seu protagonista ou oferecer um comentário social mais contundente, o filme se contenta com uma abordagem monótona, que nunca atinge todo o potencial de sua premissa.
Se a intenção era mostrar o conformismo e a resignação de um homem marcado pelo passado, o filme consegue – mas a que custo? Com um ritmo cansativo e uma abordagem que esbarra na superficialidade, Pequenas Coisas Como Estas acaba se tornando menos um retrato poderoso sobre trauma e mais um exercício de paciência para o espectador.
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela 02 Play.
Foto: Divulgação/02 Play
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