Produção sul-coreana mistura horror social e mistério urbano, mas tropeça na falta de profundidade
Muita gente vai achar a trama de Ruídos curiosamente familiar — e com razão. Poucos meses atrás, a Netflix lançou Meus 84 m², produção que acompanhava um jovem trabalhador atormentado por sons misteriosos vindos do apartamento vizinho. A coincidência é tamanha que basta trocar o gênero do protagonista, adicionar uma camada sobrenatural e o resultado se aproxima bastante de Ruídos.
A diferença, no entanto, está na cronologia. O longa de Kim Soo-jin chegou aos cinemas sul-coreanos um mês antes do lançamento de Meus 84 m², tornando difícil definir quem influenciou quem. É mais provável que ambos tenham bebido da mesma fonte — o estresse urbano e a desumanização das metrópoles modernas — temas cada vez mais recorrentes no cinema da Coreia do Sul.
Em Ruídos, acompanhamos Joo-young (Lee Sun-bin, de Amor e Batatas), uma jovem surda que decide investigar o desaparecimento da irmã, sumida logo após reclamar de barulhos incessantes no apartamento em que viviam.
Determinada a descobrir o que aconteceu, ela retorna ao prédio e conta com a ajuda de Ki-hoon (Kim Min-seok, de Descendentes do Sol), colega de trabalho e namorado da irmã desaparecida.
O roteiro, assinado por Lee Je-hui, se apoia em um cenário bastante conhecido: o microcosmo dos condomínios urbanos, onde convivem hierarquias invisíveis, relações de poder e uma fachada de civilidade prestes a ruir. Os donos dos apartamentos culpam os inquilinos, os funcionários se omitem e a administração tenta maquiar problemas estruturais em busca de aprovação pública. É o retrato fiel de uma sociedade que valoriza mais a aparência do que o bem-estar coletivo.
Apesar da boa premissa, Ruídos não consegue explorar todo o potencial de seu universo. As interações entre Joo-young e os vizinhos são limitadas, e o mistério se desenvolve de forma previsível, sem grandes surpresas. A deficiência auditiva da protagonista — um recurso que poderia ser usado para criar tensão e originalidade — acaba subaproveitada, e o longa se apoia demais em clichês visuais do gênero.Ainda assim, o diretor Kim Soo-jin demonstra domínio sobre a atmosfera do terror. Sua câmera prefere o desconforto silencioso aos sustos fáceis, e há uma elegância em algumas cenas de tensão que lembram o estilo de O Hospedeiro ou Medo. O problema está na repetição: planos idênticos retornam com frequência e o cenário carece de uma identidade visual mais marcante.
Quando o filme se concentra em Joo-young e deixa o discurso social em segundo plano, ele ganha força. São os momentos mais íntimos — os ruídos que só ela parece ouvir, os silêncios que gritam — que revelam o verdadeiro potencial da obra. No fim, Ruídos é um bom exercício de gênero, mas que poderia ter sido excelente se tivesse encontrado equilíbrio entre sua crítica urbana e o terror psicológico que ensaia, mas não desenvolve.
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela A2 Filmes.
Foto: A2 Filmes
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